Ela tem a pele branca, carinha de anjo, cabelos pintados, cintura fina, coxas grossas, seios grandes, bunda arrebitada. Está dançando p/ mim, tirando a roupa, até restarem apenas biquini, salto alto e adesivo sobre os mamilos. Ela desce do palco, passa na minha frente, eu chamo p/ conversar. Em 5 minutos estamos num quartinho dos fundos.
***
A cena descrita não faz parte de uma fantasia erótica c/ Dita Von Teese, ou algo do tipo. Aconteceu comigo há alguns anos, e a garota em questão se chama Bruna. Nome de guerra, igual a ‘Dita’.
BURLESQUEHeather Renée Sweet é a musa do momento. Estampa capas de revistas masculinas do mundo todo, é convidada p/ premiações de música e desfiles de moda internacionais, e ostenta o título de Rainha doBurlesco, tipo de espetáculo nascido nos cabarets franceses do final do Séc.XIX e exportado p/ os EUA no início do século passado.
O ‘burlesco’ é um show de strip c/ glamour. "É difícil p/ as pessoas entender que o strip tease já foi uma forma respeitada de entretenimento", diz Heather, que pegou seu nome artístico emprestado da atriz Dita Parlo, e inventou o sobrenome Von Teese numa referência fetichista sadomasô. Ela é uma das responsáveis pelo revival da estética pin up dos anos 1940/50, inspirada em modelos eternas comoBettie Page eMarilyn Monroe.
Vem de Bettie seu estilo impecável e sua aparente inocência, que acentuam a sensualidade; de Monroe, ela clonou o vestuário e a pinta acima da boca. "Eu via as mulheres dos anos 40 no cinema e pensava: nada é de verdade. Percebi que podia fazer igual. Adoro essa beleza artificial, inventada."
E Heather se reinventou. Pintou de preto os cabelos loiros, pôs silicone nos seios e virou Dita, a performer que submete seus 58cm de cintura a espartilhos de 40cm de diâmetro, transformando sua cinturinha de pilão em uma ampulheta.
PIN UP SM 009
Aos 37 anos, Dita vive o melhor momento de sua carreira. Nos cabarés da vida desde o início dos anos 90, sua exposição na mídia aumentou exponencialmente após o casamento c/ o bizarroMarilyn Manson, que durou de 2001 a 2006. Essa garota tem fixação por Marilyns ou o quê?
Há 3 anos, apareceu totalmente nua ao lado da ninfeta Scarlett Johansson em um ensaio fotográfico da revistaFlaunt. Ela interpretava a escrava sexual da dominatrix Scarlett. Desde então tornou-se ícone também do público lésbico.
Após 10 participações em filmes underground como Romancing Sara[1995], Pin Ups 2[‘99] e Naked and Helpless[2002], Von Teese finalmente recebeu um prêmio em 2005: melhor atriz no Beverly Hills Film Festival por The Death of Salvador Dali. Apesar de ter estrelado mais 3 filmes depois disso – entre eles Indie Sex: Extreme e The Boom Boom Room, ambos de 2007 – sua carreira no cinema não decolou.
Dita é uma stripper, igual a Bruna, a garota do início do texto. Ambas até se parecem fisicamente, c/ a diferença da idade [a sergipana está nos seus vinte e poucos anos], dos peitões [siliconados em uma, naturais na outra] e no modo de conduzir a carreira.
As apresentações da norteamericana são superproduções. Ela pode se despir montada num cavalo de carrossel, dentro de um estojo de maquiagem gigante ou de um copo de Martini king size. A trilha sonora é de big bands, as casas noturnas são luxuosas. Recentemente, fez uma temporada de 2 semanas noLe Crazy Horsede Paris. “Eu gosto de flashback”, me disse Bruna, dançarina de um inferninho em Aracaju.
PAY PER VIEWDita Von Teese ganha dinheiro tirando a roupa, e eu não estou falando de notas de 1 dólar enfiadas na calcinha por bêbados na beira do palco. Ela cobra US$ 75.000 por show.
E há gente disposta a pagar. Semana passada, a nova diva do Séc.XXI esteve no Brasil exibindo seu material no espetáculo Be Cointreauversialdiante de uma seleta audiência, a maioria dos VIPs mulheres, como a cantora Pitty, a apresentadora Luisa Mell e a sem-noçãoFernanda Young, quase explodindo dentro de um espartilho que emulava os utilizados pela atração da noite.
O show, que aconteceu na boate The Week, quarta-feira 28/10, foi promovido pela marca Cointreau[patrocinadora da stripper] e durou 10 minutos. A expressão ‘strip tease’ significa ‘provocação ao se despir’, e Dita leva sua profissão a sério: “Esse é o meu trabalho e, p/ me ver fazendo um strip, meu namorado precisa estar na platéia.”
O Brasil é engraçado. Enquanto a stripper gringa era adulada na zona sul de São Paulo, a poucos quilômetros dali, em São Bernardo do Campo, ABC paulista, uma aluna da Universidade Bandeirantes era escorraçadapelos próprios colegas por causa de um vestido vermelho curto. “Ela gosta de aparecer”, justificou um dos estudantes que puxaram o coro de ‘puta’. A garota, chamada Geise, teve que ser escoltada pela polícia e caiu em depressão: “Estou praticamente trancada em casa”, declarou a Rafael Ribeiro, do Diário de SP.
SHAKE YOUR MONEY MAKERViva La Brasa apóia tanto a arte do burlesco quanto a profissão mais antiga do mundo. E afirmamos nosso suporte à causa c/ 2 presentes p/ os leitores: um vídeo da Dita em ação & uma entrevista concedida a Barbara Duffles, do siteEgo, na qual Von Teese revela uma admiração mútua pelo escritor Paulo Coelho – que não é nada bobo e já manifestou o desejo de ‘trabalhar’ c/ ela.
Gostar dos livros do PC até passa, ninguém é perfeito, mas $75 mil dólares por 10 minutos tirando a roupa? A Bruna me cobrou $50 reais pelo serviço completo. "Uma das melhores coisas do Brasil é a comida", diz a musa hype top of mind do strip tease.
Como você define seu trabalho? Sou uma performista burlesca. O burlesco era uma forma de entretenimento muito popular nos anos 30 e 40 na América. As estrelas destes shows de variedades, que incluíam comédia e música, eram artistas de strip-tease, como Gypsy Rose Lee, que escreveu livros, participou de filmes e programas de TV. Basicamente o que faço é manter viva essa arte. O que você sente quando fica nua durante seus shows? Não costumo pensar muito nessa questão de tirar a roupa. Fico mais preocupada c/ o espetáculo, c/ a produção, a luz, o figurino – que é uma parte fundamental do show – , e c/ o que estou fazendo. Não tenho muito tempo para pensar na minha nudez, é um fator totalmente irrelevante para mim. Sou dançarina, performista, e isso faz parte da performance. Assim como uma atriz quando faz uma cena de nudez. Faz parte. A maioria das pessoas sente vergonha de tirar a roupa em público. Do que você tem vergonha? Definitivamente, não tenho vergonha de mostrar o corpo na frente do público. Mas sou como todo mundo, se alguém me puxar do carro e me colocar nua na rua, eu vou ficar c/ vergonha. Não sou uma exibicionista. Tenho os mesmos sentimentos que todo mundo. Mas é diferente quando estou no palco, fazendo o que sei fazer melhor. Que cuidados você tem c/ o corpo e c/ a pele? Faço muito pilates e ioga. Às vezes balé. Tenho muito cuidado c/ a pele, não pego muito sol, não fumo. Você controla a alimentação? As pessoas ficam surpresas de ver o quanto eu como. Eu amo comer! Mas eu como c/ consciência, não como junkie food. Gosto de ir a bons restaurantes. O que você comeu no Brasil? Fui a um restaurante incrível. Amo o jeito como se cozinha no Brasil, usando coco, banana, abóbora... Gosto muito de misturar frutas na comida. Como os homens te olham? Eles se sentem intimidados? Acho que sim, alguns se intimidam. Eu tenho meus fãs, e respeito as idéias de cada um sobre beleza. Cada um tem sua própria idéia do que é sexy e bonito. P/ algumas pessoas, eu sou sexy, p/ outras, não. O seu estilo de vida interfere nas relações amorosas? Acho que no passado sim. Faço isso há 18 anos e teve momentos em que alguns relacionamentos não deram certo por conta das coisas que fazia, das roupas que usava. Sei que não é fácil estar c/ alguém como eu. Mas acho que tenho tido sorte em encontrar pessoas que aceitam o que faço, que me entendem e admiram. Que dicas você daria p/ as mulheres se sentirem bonitas e sensuais? Eu costumo dizer que nem eu nem ninguém pode dizer o que uma mulher deve fazer p/ se sentir bonita e sexy. O segredo é não pensar no que os outros acham que é sexy. O importante é seduzir a si mesma, sentir-se confiante. É isso que é ser sexy, e não deixar outras pessoas colocarem idéias em sua cabeça. O escritor Paulo Coelho disse que é seu fã e que vocês vão trabalhar juntos em 2010. Quais são os planos? Segredo![risos]Nós temos uma admiração mútua um pelo outro. É interessante ver como as pessoas ficam surpresas e até ofendidas pelo fato de nos conhecermos. Como vocês se conheceram? Não me lembro muito bem, mas sei que nos conhecemos durante um jantar. Tive momentos fabulosos c/ ele e c/ seus amigos. Não tinha lido os livros dele na época, mas desde então li tudo o que ele escreveu. Foi bastante enriquecedor e me ajudou a passar por momentos difíceis.
Wednesday, November 04, 2009
505Morreu Claude Lévi-Strauss, antropólogo, filósofo e professor belga criador do Estruturalismo, co-fundador da Universidade de São Pauloe autor deTristes Trópicos, registro de expedições ao Brasil central p/ conviver c/ índios bororós, nambikwaras e tupis-kawahib. Tinha 100 anos, o mais longevo membro da Academia Francesade todos os tempos. Faleceu no sábado, mas a notícia só foi divulgada ontem. Não confundir c/ o inventordascalças jeans. "Meu único desejo é um pouco mais de respeito p/ o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele."CLS[*28/11/1908 - +30/10/2009]
Wednesday, October 28, 2009
SACANAS SEM LEI
“Seja marginal, seja herói.”
A frase é do carioca Hélio Oiticica[1937 - 1980], um dos principais artistas plásticos do país nas décadas de 60/70, período em que ser marginal significava lutar contra o sistema. Eram os anos de Chumbo da Ditadura Militar no Brasil.
Oiticica foi um vanguardista especializado em instalações e intervenções. Suas obras mais famosas são a peça orgânica Tropicália, de ’67 – que deu nome a um movimento musical composto por Mutantes, Caetano, Gil e Tom Zé, entre outros – e as séries Cosmococas e Metaesquemas.
No última dia 16, milhares de quadros, esculturas, instalações e peças de todo tipo herdadas do acervo de Hélio queimaram em umincêndiona casa do seu irmão, o arquiteto César, incluindo os famosos “parangolés”, estandartes e bandeiras feitos p/ serem vestidos em performances. Ao todo, 1500 trabalhos do artista viraram cinzas.
ARTILHARIA PESADA
Em 2009 ser marginal está na moda.
“Festa do FB é tipo Osama Bin Laden/ A PM aqui não entra/ Aqui só tem talibã/ Terrorista da Al Qaeda...”, cantaMC Smithno funk proibidão em homenagem ao chefe do tráfico no complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro. O Complexo do Alemão, onde a polícia não entra desde que começaram as obras do PAC, há 1 ano. O Alemão, onde um helicóptero da PM foi abatido por tiros de fuzil, ao sobrevoar o Morro do Macaco.
A Al Qaeda está bombando nas últimas semanas.Na quarta 16, mesmo dia em que Oiticica queimava na zona sul carioca, 2 atentados suicidas simultâneos mataram 11 pessoas em Penshawar, Paquistão. Hoje, 28 de outubro, outro duplo atentado: uma bomba magnética explodiu num ônibus em Sadr City, bairro xiita de Bagdá, matando 3 mulheres, e uma explosão durante a passagem de uma patrulha do exército matou mais 3 pessoas em Mossul.
Bagdá e Mossul são cidades do Iraque, onde 155 pessoas morreram no último domingo em outro atentado suicida orquestrado: um caminhão e um micro-ônibus explodiram contra o Ministério da Justiça e a sede do governo da capital. E por falar em orquestração, hoje foi um dia de cão. Enquanto a antiga Babilôniaardia em [novas] chamas, um comando talibã atacou 2 pensões em Cabul, matando 6 afegãos e 6 funcionários da Unama, a missão de assistência da ONU no Afeganistão. E em Penshawar, uma nova investida deixou quase 100 mortos, durante visita da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ao Paquistão.
POLÍTICA TALIBÃTodos os atentados foram reinvidicados pelaAl Qaeda.
"Os eventos mostram quão longe os extremistas estão dispostos a chegar e a ameaça que representam", declarou Robert Gibbs, secretário de imprensa da Casa Branca. A idéia dos terroristas é mostrar poder de fogo e desestabilizar os governos desses países, aliados aos interesses ocidentais.
No Afeganistão, o 2º turno das eleições presidenciais acontece no dia 07 de novembro. “Essa tentativa de impedir que os afegãos elejam seu próximo governo não terá sucesso”, diz o porta-voz dosEUA. No Iraque, está em andamento a reforma de lei que regulará as eleições de 16 de janeiro do ano que vem. No Paquistão, a Al Qaeda montou sua base após o 11 de setembro. No Rio de Janeiro, mais de 40 mortos nas últimas 2 semanas.
“São uns anormais”, disse o presidenteLula, referindo-se aos traficantes cariocas, não aos terroristas talibãs. Em mais uma inauguração, desta vez da vila olímpica na Mangueira, ele disse hoje: “As pessoas que acham que seja fácil enfrentar uma quadrilha organizada, é ilusão, é difícil, é preciso investimento na inteligência”. Lula sente falta do “romantismo” da favela, acredita que a guerra entre quadrilhas passa ao mundo uma “idéia errada” sobre a cidade-sede das Olimpíadas 2016, e afirma que “a violência não é exclusividade do Rio, ela ocorre em todo o Brasil, a diferença é que no Rio a repercussão dos fatos é muito maior”.
BASTARDOS“Sacanas sem lei”, diriam em Portugal.
Foi assim que os gajos traduziram o novo filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios. A fantasia de guerra sobre um grupo de soldados judeus americanos que aterrorizam os nazistas durante a ocupação da França, arrancando-lhes os escalpos, já é o maior sucesso comercial do diretor de Pulp Fiction e Kill Bill. Lançado em julho, Bastardos... ultrapassou os US$ 100 milhões em bilheteria logo no 1º mês de exibição – quase toda a renda de Pulp Fiction nos EUA, e mais do que o 1º volume de Kill Bill.
Especula-se que o prejuízo material pela perda das obras de Hélio Oiticica no incêndio da semana passada seja da ordem de US$ 200 milhões. Inflacionado após uma mostra no MoMa de Nova York em ’97, Oiticica passou a valer mais morto do que vivo. Em ’80, ninguém pagava mais que $2000 num desenho seu; este ano, o Metaesquema 19 foi arrematado por US$ 186.500 no leilão da Christie´s, e a galeria Tate Modern pagou US$ 850.000 por Tropicália.
Quase todos os parangolés foram destruídos pelo fogo no Jardim Botânico. Só restaram as obras em museus, galerias e coleções particulares mundo afora: além de Tropicália, as séries Metaesquemas, Bólidos e Cosmococas, na Tate em Londres, no MoMa em NY, no museu Malba em Buenos Aires e no Instituto Inhotim, em Minas Gerais. Da série Bilaterais, só se salvaram as estruturas. “Ainda assim, preservamos esquemas digitalizados, e podemos reconstruir algumas obras p/ fins didáticos. Sei que ele deu um parangolé p/ oGuy Brett, outro p/ um amigo na Bélgica. Mas foram poucos”, lamenta-se o irmão vacilão.
MOD DEVELOPERTarantino, por sua vez, segue colhendo os louros por seu último filme.
Não bastasse o sucesso comercial,Bastardos Inglóriosvem sendo saudado como seu trabalho mais maduro. “Nos videogames existem os chamados ‘mod developers’, sujeitos que pegam games existentes no mercado e interferem em seu funcionamento, dando aos jogos novas características, fundindo temas e franquias, mas quase sempre trabalhando dentro de uma estrutura funcional pré-estabelecida”, compara Érico Borgo, do siteOmelete: “De um clássico, portanto, pode surgir algo novo e que acaba tão – ou em alguns casos, mais – apreciado quanto o título original. Quando penso no cinema de Quentin Tarantino não consigo deixar de compará-lo a um mod developer – e um dos bons”.
O que ninguém diz [até agora o Binho Nunes foi o único a citar esse detalhe em seublog] é que Bastardos... é a refilmagem de um filme trash dos anos 70. O obscuro Bo Svenson fazia o papel de líder da milícia, que coube a Brad Pitt. Havia um negão entre os Bastards, Fred Willianson [da série de TVShaft], e as garotas, menos bonitas que Mélanie Laurent e Diane Kruger, pelo menos pagavampeitinho. Apesar da história se passar na 2ª Guerra Mundial, o clima da nova versão é de faroeste. A trilha de abertura é de Ennio Morricone. O personagem de Pitt é conhecido como ‘Apache’ por tirar o couro cabeludo das suas vítimas. Seu nome, Aldo Rayne, é uma homenagem aos atores Aldo Ray e John Wayne. As referências aos diretores Sergio Leone e John Ford são óbvias, mas também há citações ao expressionismo alemão e à nouvelle vague, movimentos artísticos do cinema europeu.
“Os judeus perseguidos pelos alemães na França ocupada de Quentin Tarantino têm uma característica incomum p/ a raça: eles gostam de mostrar aos alemães a concretização da violência; gostam de expor a seus perseguidores sua astúcia; as crueldades de que são capazes; a frieza c/ que executam seus inimigos, fazem sofrer”, diz Luiz Biajoni, do blog Amálgama. A seguir, a entrevista que o “inglorious bastard” de Hollywood concedeu a Henri Sordeau, do siteRotten Tomatoes. Que maturidade, o quê! Em filme de Tarantino, a platéia quer é ver sangue.
Quando você escreveu o roteiro de Bastardos Inglórios?
Quentin Tarantino:Eu comecei em janeiro do ano passado e, literalmente, fui escrevendo até julho. Os dois primeiros capítulos do filme foram feitos a partir de um material mais antigo [o filme original, de 1978]. Eu reescrevi um pouco essa parte, mas é um material antigo. Mas tudo do capítulo 3 em diante eu escrevi naquele período do ano passado.
Há algum motivo especial para todos os títulos dos seus filmes terem duas palavras?
QT:[risos]Nunca tinha pensado nisso antes, mas acho que você tem razão. Suspeito que é porque sempre funcionou desse jeito. Para mim, o título é sempre muito orgânico: não é simplesmente “Ah, isso precisa ficar bonito no pôster”. Se, por alguma razão eu não pudesse usar Bastardos Inglórios, provavelmente iria chamá-lo Era Uma Vez Numa França Ocupada por Nazistas.
Como você descreveria a história? De alguma maneira, lembra bastante seus primeiros roteiros como Amor à Queima Roupa [1993] e Assassinos por Natureza['94]…
QT: P/ mim, não é como Pulp Fiction, é muito mais parecido c/ Amor à Queima Roupa e também como Cães de Aluguel[1992]. A cena de La Lousiane é como uma versão reduzida de Cães de Aluguel, mas c/ nazistas na Alemanha. É uma cena de 23 minutos, e ao invés de um galpão, temos um pequeno bar no subsolo. Mas p/ mim, também tem um certo aspecto de Pulp Fiction, quando você tem todas essas histórias diferentes que vão se dirigindo p/ o mesmo lugar. Nesse sentido, é mais Pulp Fiction. As histórias são ainda mais diversas, mas na verdade elas estão contando uma grande história, ao invés de ser um grande mosaico. Mas também me lembra bastante Amor à Queima Roupa, porque sempre tem um personagem novo que chega e rouba a cena, alguém que simplesmente pega o filme na mão e sai correndo c/ ele. A cada 20 minutos você se pergunta “Que porra de filme é esse?”
Muitas pessoas esperavam um filme tipo Os Doze Condenados [dirigido por Robert Aldrich em 1967], c/ homens cumprindo uma missão, masBastardos Inglórios não é bem assim...
QT:Bem, na verdade, foi Os Doze Condenados que me deu a idéia de fazer esse filme. Mas é sempre assim comigo: todas as coisas que me inspiram a sentar e escrever geralmente não são aquelas que eu termino fazendo. Porque, por mais que eu ame o gênero, e tente cumprir as expectativas, acabo pegando um outro caminho. Vou fazer algo propriamente meu. Quando sentei para escrever Cães de Aluguel, eu queria fazer um filme sobre um assalto. Bem, eu fiz [risos], mas você não viu o assalto!
Você tomou muita liberdade c/ o contexto histórico no filme. Essa sempre foi a sua intenção?
QT:Não foi onde eu comecei. Sem dúvida não foi assim que eu comecei. Não fazia idéia de que isso iria acontecer. Quando se começa a escrever, você tem seus personagens em uma estrada, e conforme eles andam por ela, todas essas outras estradas começam a surgir, tornando possível que eles sigam por elas. Muitos roteiristas bloqueiam essas outras estradas e não permitem que seus personagens sigam por elas. E sem razão nenhuma, geralmente por seguirem a convenção estabelecida. Bem, eu nunca coloquei bloqueio algum em nenhum desses caminhos. Meus personagens podem ir onde quiserem e eu irei segui-los.
Então o que aconteceu quando você os seguiu?
QT:Bem, nesse filme havia um grande bloqueio na estrada, e isso era a própria História. Eu esperava honrar aquele bloqueio. Mas uma hora, enquanto estava concentrado em escrever o roteiro, eu pensei: “espera aí, meus personagens não sabem que são partes da História. Eles estão no imediato, no aqui e agora, isso está acontecendo. A qualquer minuto eles podem estar mortos. E sabe de uma coisa? O que acontece nesse filme não aconteceu na vida real porque meus personagens não existiram. Mas se eles tivessem existido, talvez isso pudesse ter acontecido na vida real.” E daí p/ frente, isso apenas teve de ser plausível, e eu tive que me permitir seguir adiante c/ o roteiro.
O que você quer dizer c/ plausível?
QT:Meus personagens mudaram o curso da História. E quando digo isso, não estou falando apenas de Shosanna, Aldo ou os Bastardos. Estou falando de Fredrick Zoller. Se um soldado alemão tivesse feito o que ele fez naquele momento da guerra, tenho certeza de que Joseph Goebbels teria feito um filme sobre ele. Do mesmo jeito que Hollywood fez com Terrível como o Inferno[1955], com Audie Murphy. E se qualquer soldado fosse parecido com Daniel Bruhl, provavelmente também seria a estrela do filme. Mas não apenas isso, Goebbels fez um filme parecido c/ isso, chamado Kolberg, que basicamente dizia “Ok, sabemos que não podemos ganhar mais batalhas, mas podemos fazer essa produção gigantesca e épica, que servirá de propaganda como se tivéssemos ganhado a batalha”. Então, eu acho que Goebbels teria feito isso, e eles teriam tido uma noite de gala para a premiére, e um monte de pessoas estaria lá… e assim por diante. Basicamente é a ideia de que meus personagens mudaram o curso da História.
O filme tem muitas referências aos Westerns Spaghetti [faroeste produzidos na Itália nos anos 60 e 70], especialmente na música. O quanto esse filme é influenciado por Sergio Leone?
QT: Leone teve uma graaande influência sobre mim. Ele é o meu diretor favorito, e Três Homens em Conflito[1966] é o meu filme favorito. A estética dele e a minha são meio que entrelaçadas, porque eu realmente sou influenciado por ele, mas sempre tentei imprimir meu próprio estilo. Nunca fiz um western spaghetti. Não conseguiria fazer um western spaghetti[risos]. Não sou tão italiano assim! De qualquer maneira, no minuto em que você grava um filme desses, capturando o som durante as filmagens, torna-se um filme completamente diferente[os westerns spaghetti geralmente eram dublados depois em estúdio]. Mas pegar o estilo que ele desenvolveu e aplicar em outros gêneros é algo completamente diferente. Ele é uma grande influência.
Você tentou evitar deliberadamente as convenções dos filmes de guerra?
QT: Eu quis me manter longe daqueles clichês bobos de filmes de guerra, que eu nunca gostei. Sabe, aquele tipo de cena em que um bando de caras precisa derrubar alguém de guarda, e apenas estrangulam o cara levemente, como se isso fosse o suficiente[risos]. Eles matam um soldado alemão e repentinamente não há sangue algum em seu uniforme, ou mesmo um buraco de bala, e ainda por cima o uniforme serve perfeitamente quando eles o vestem! Esse tipo de coisa que tentei evitar. É, de certa forma, um filme de gênero diferente de tudo o que eu fiz antes, porque o final realmente segue o rumo que se espera dele. Há uma missão no final, e eles resolvem executá-la. Brinco um pouco c/ as expectativas dessa missão, mas basicamente é isso mesmo que se imagina.
Como foi sua abordagem sobre a violência nesse filme?
QT: Eu lembro de um crítico dizendo, algum tempo depois de Cães de Aluguel e Pulp Fiction, que eu era muito minucioso p/ me tornar um mestre do suspense. Então a técnica que eu tentei empregar no filme foi considerar o suspense como um elástico, que estivesse sendo esticado pouco a pouco a cada cena, se tornando cada vez mais apertado. A idéia, se bem sucedida, não é fazer cada cena cada vez menor por causa disso, mas sim ver até onde eu posso continuar esticando o elástico. As cenas deveriam demorar o máximo possível, o máximo que o elástico pudesse aguentar. Deveria levar a um limite, ao melhor momento. E então… Snap! E quando arrebentasse, acabaria em um segundo.
É por isso que há tão pouco sangue, especialmente na primeira cena do filme?
QT:É sim. Achei que seria muito mais assustador e realista se você não visse o sangue, só visse a serragem. Qualquer um pode simplesmente mostrar porrada. Mas tanto nessa sequência quanto em La Louisiane estava testando alguns modelos de suspense, de um jeito que nunca fiz antes.
Você se sentiu pressionado em terminar o filme p/ o Festival de Cannes?
QT:C/ certeza houve pressão! Depende de você dizer, mas não acho que tivemos alguma perda c/ isso, e não fizemos nada porcamente. Meu editor, Sally[Menke], e eu trabalhamos muito rápido[risos]. Acho que nunca vou querer trabalhar tão rápido assim de novo, mas sempre trabalhamos melhor quando temos um prazo a cumprir. Isso não é novo p/ nós. Foi novo no sentido do tamanho do filme e também no curto espaço de tempo que tínhamos p/ terminá-lo, mas também corremos c/ Cães de Aluguel para finalizá-lo a tempo, p/ o Festival de Sundance, e também fizemos a mesma coisa c/ Pulp Fiction p/ ficar pronto pra Cannes, e c/ Jackie Brown[1997]e sua data de estréia no natal. Já estamos acostumados c/ isso. E gostamos de viver nesse estado. Gostamos de não pensar duas vezes nas coisas. Você pode estragar um filme desse jeito. Gostamos de apressar as coisas, tipo “Vamos por esse caminho e pronto”, BAM!
Saturday, October 24, 2009
FUNCIONÁRIO DO MÊS “Eu tenho batalhado tanto por isso, desde que venci o Mundial Jr. e o WQS. P/ finalmente vencer aqui em Mundaka, onde a cultura é tão rica e as pessoas amam o surf, é incrível. É o dia mais especial da minha vida.”Adriano de Souza, surfista profissional campeão da 8ª etapa do circuito mundial de surf, o WCT.
WCTsignifica “world championship tour”, turnê do campeonato mundial. Adriano de Souza é o Mineirinho, paulista do Guarujá de 22 anos e uma trajetória precoce e vitoriosa. Venceu seu 1º campeonato profissional aos 14 anos, idade em que a maioria dos adolescentes ainda nem chegou ao ensino médio. Aos 15, foi campeão brasileiro da divisão de acesso aoSuper Surf, o Brasil Tour, c/ 2 vitórias, uma delas sobre o ídolo Fábio Gouveia. Aos 16, CAMPEÃO PRO JR. na Austrália. Até hoje o mais jovem campeão mundial da ASP.
ASP é a sigla de “association of surfing professionals”, associação dos profissionais de surf. É a entidade que rege o surf mundial, estabelecendo parâmetros financeiros, competitivos e de performance, coroando campeões através de um circuito anual c/ etapas realizadas nas melhores ondas . É um formato legítimo e em constante aperfeiçoamento, que já premiou c/ o título de “melhor do mundo” lendas como Rabbit, Shaun Tomson, Mark Richards, Tom Carroll, Tom Curren, Mark Occhilupo, Sunny Garcia, Andy Irons e o mais vencedor de todos – Kelly Slater.
Os números falam por si: 9X campeão mundial, 41 vitórias no WCT, mais um título doWQSe outro doEddie Aikau Memorial, quase US$ 2 milhões em ganhos acumulados na carreira – apenas na ASP, sem contar os patrocínios. E é aí que a porca torce o rabo.
REBEL TOURKS é patrocinado pela marcaQuiksilverhá quase 20 anos. Assinou em 1991 um contrato que lhe garantia $1 milhão de doletas por ano, antes mesmo do 1º título [que viria a galope em ’92]. Imagina seu salário atual. No início da temporada, ainda foi oferecido um ‘bicho’ de US$ 10.000.000,00 caso Slater vença o circuito pela 10ª vez. Mas o atual [enea]campeão mundial optou por testar formatos de prancha alternativos nas competições, surfando c/ quadriquilhas fish e perdendo de ‘prima’ nas primeiras etapas. “Não estou aqui p/ ser apenas um figurante”, disse após mais uma derrota: “Se não for p/ brigar pelo título, prefiro nem competir. E agora c/ três 17ºs seguidos, não sei se vou continuar.”
Quando a Quiksilver renovou o contrato de Kelly por mais 5 anos, o chefe executivo da empresa, Bob Mcknight, divulgou na imprensa que “Slater tem algumas grandes idéias nas quais vamos trabalhar juntos p/ realçar o potencial de marketing do surf e levar as competições de surf a uma audiência mais ampla”. A idéia: um circuito centralizado nos EUA, c/ apenas 16 surfistas competindo em 8 eventos concentrados numa temporada de 5 meses, c/ premiação de US$ 1.500.000,00por etapa e transmissão pelaESPN.
O WCT é bancado basicamente por 3 marcas especializadas em surf: Billabong, Rip Curl e Quiksilver, que, ao anunciar seu apoio à proposta de um novo circuito, pôs a ASP em polvorosa. A entidade está sem presidente desde que Wayne Rabbit, campeão mundial em ’78 e diretor da associação por mais de uma década, aposentou-se no início do ano. A debandada dos dólares gerados por uma eventual saída de Slater e seu patrocinador fez a ASP antecipar-se a anunciar a diminuição do número de competidores a partir de 2011 – de 44 p/ 32 – e aumento gradual de premiação nas próximas temporadas.
“Os patrocinadores são donos de tudo atualmente. Isso precisa mudar”, disse o careca da Flórida à revistaEXPNem maio. “A entidade reguladora do esporte deve deter os direitos e realizar os eventos, fazer a mídia, o marketing, trazer patrocinadores. No momento, a ASP não faz nada disso.”
FUTURO DA NAÇÃO“Infelizmente p/ a ESPN, eles não têm um comprador. Nunca tiveram. Na verdade, eles estão tentando vender o projeto à indústria do surf”, afirma o jornalista Nick Carroll [irmão do Tom, campeão mundial de 1983/84], revelando o blefe do campeão: “Eis porque a Quik está mais interessada que as outras; o novo ‘top star’ americano deles, Dane Reynolds, ainda não emplacou no WCT, e o ‘rei de todos os tempos’, Kelly Slater, está fora da corrida pelo 10º título em 2009. Se Dane sair e Kelly cansar, eles não terão nada.”
“Minha maior motivação é estabelecer um patamar superior p/ o surf profissional”, declarou Slater ao siteSurfingLife: “Eu não quero sabotar ninguém. Se essa é a coisa certa, os outros surfistas serão peça-chave no sucesso do projeto.” A questão é: E se não for a coisa certa? “O surf, na minha opinião, por ser difícil praticá-lo e impossível de empacotá-lo p/ a TV, continuará a ser um esporte único, alternativo e muito especial”, rebate Álfio Lagnado, proprietário da marca brasileiraHang Loose, que promove a 4ª etapa do WCT – vencida este ano, vejam só, pelo Kelly.
Álfio foi o 1º patrocinador de Mineirinho, na época um piá de 10 anos. “Por que você não cresce e ganha o tão sonhado título mundial pro Brasil?”, apostou o empresário. “Desde garoto, a imprensa, esse animal irracional, cisma de jogar nas costas do Mineiro a responsabilidade de (como escreveu João Valente…) ‘carregar a expectativa de uma nação nos ombros’, uma maldade sem tamanho que fazem c/ ele desde que levantou seu primeiro caneco”, escreveu o blogueiro Júlio Adler na revistaHardcore: “Logo cedo, ao invés de ser abandonado como a maior parte das crianças pobres deste país, abandonou seu patrocinador de longa data, Hang Loose, e acertou um belo contrato c/ a gigante Oakley, um ato de coragem e, digamos, pouca afeição.”
“Todo mundo espera que seja campeão mundial, mas a maior pressão vem de mim – não dos outros”, disse Adriano ao jornalista Evan Slater, da revista americanaSurfing.
CHANGES“Mudanças sempre assustam as pessoas”, insiste KS na entrevista p/ o jornalista Tim Baker, do SurfingLife: “Eu não estou mudando nada sozinho e sem apoio dos surfistas. Minha intenção é criar um ambiente competitive melhor p/ o surf. A atual estrutura está ultrapassada, e embora tenha servido a um propósito um dia, agora é a hora de mudar as coisas enquanto é possível ou continuar a permitir um modelo de negócio ultrapassado que atrasa a indústria e entrava o potencial do nosso tour. Se no fim os fãs e os surfistas tem uma plataforma melhor, por que alguém vai reclamar?”
Observem os olhos de Kelly na foto ao lado.As órbitas das pupilas estão cada vez mais separadas, quase um camaleão. Mas, só p/ manter as metáforas no reino animal, “gato c/ 2 sentidos não pega rato”, já dizia minha mãe, dona Ana. Enquanto ele faz política e [mal] aparece num modesto 6º lugar no ranking 2009, c/ uma vitória,Mick Fanning[FOTO ACIMA], australiano campeão do mundo em 2007, faz uma corrida de recuperação e após vencer 2 etapas seguidas – EUA e França – roubou a liderança do amigoJoel Parkinson, que venceu 3 etapas no 1º semestre e depois não arrumou mais nada.
É a temporada mais disputada dos últimos anos. Menos de 50 pontos separam os 2 primeiros colocados, Mick e Parko, e um novo elemento apareceu na jogada, atropelando no final: Adriano de Souza, campeão emMundaka, País Basco [oficialmente Espanha], no dia 13 de outubro. Igual aos Bastardos Inglórios, em um só dia Mineirinho arrancou os escalpos do australiano Chris Davidson na final e mais 3 americanos pelo caminho – entre eles Kelly Slater nas semis.
“É meu 4º ano no tour. Eu competi muito contra Kelly, Andy, todos os grandes nomes, e perdi tantas vezes que aprendi algumas coisas no caminho. E agora tô começando a dar o troco. Toda vez que você perde, aprende algo”, filosofa Adriano, esbanjando humildade. “Este ano só tenho em mente continuar evoluindo, continuar evoluindo... Competir c/ Joel e Kelly surfando no mesmo nível é demais, né? ”
QUERER É PODER“Tudo isso começou 5 anos atrás, c/meu plano de treino, dieta, etc. No Brasil tenho um mÉdico que me acompanha. É difícil manter o programa na estrada, mas eu dou o meu melhor.” Mineirinho, que passou a usar o nome de batismo p/ não virar “Miney Rio” na pronúncia tosca dos gringos; que trocou o shaper que fazia suas pranchas desde a infância, Ricardo Martins, pela marca espanhola Pukas; hoje mora em San Clemente, Orange County. “A Califórnia tem boas ondas e bons surfistas. Eu sempre vejo alguns dos Top 44 surfando, o que é ótimo p/ me tornar um surfista melhor”, disse na entrevista a Evan Slater, intitulada The Education of Adriano de Souza: “Rincon, Jalama, alguns outros picos. Eu dirigi um monte pela costa. Sozinho. Foi incrível, cara!”
Adriano divide o teto c/ Timmy Patterson, parceiro na equipe Red Bull. Oakley, Pukas, Red Bull, só patrocínio estrangeiro – Mineirinho é o surfista brasileiro mais internacional de todos os tempos. Aos 17 já era celebridade graças ao título mundial sub-20. Aos 18, campeão do WQS c/ vitórias no Brasil e na França. Classificado p/ o WCT aos 19, passou por maus bocados nos 2 primeiros anos: “Quando vi Jeremy Flores sagrar-se Top 10, queria estar lá junto c/ ele”, disse à revista Hardcore, referindo-se a um dos principais rivais da sua geração. “2007 foi duro, e ano passado todos os caras novos estavam chegando – Jeremy evoluindo muito, Jordy e Dane estreando no tour… Eu tinha que dar um passo à frente, senão era melhor esquecer.”
“Quando Dane Reynolds e Jordy Smith chegaram ao WCT cheios de fogos de artifício, Mineiro já era quase um veterano”, comenta Júlio Adler no artigo Peter Pan Ao Contrário: “Jordy e Dane, que já chegam c/ um surfe maduro e pronto p/ o título mundial, pecam pelo que Adriano tem de sobra: garra. Peter Pan serve de metáfora pra todo tipo de fuga das responsabilidades. Mineiro enfrenta-as sem sequer piscar os olhos, ele escolheu isso e pronto.”
TOUR DE FORCEMineirinho está em 3º no ranking, a duas etapas do fim. “Adriano vem da favela de Santos e é no mínimo tão esperto e talentoso quanto qualquer um no Tour”, analisa o australiano Ian Cairns, Top 16 nos anos 70 e ex-presidente da ASP. Na coluna Power Rankings do siteSurfline, ele deu seu veredito após a vitória dobrasileiroem Mundaka: “Minha estimada audiência tem me cobrado constantemente pela minha previsão de um título mundial p/ Adriano em 3 anos. E se for pra agora? Graças às suas origens, sua motivação p/ vencer é maior que a de qualquer um. Não se surpreendam se ele for o Campeão Mundial em 2009.”
O moleque sempre foi decidido. Ainda menor de idade, conquistou a gata Cláudia Gonçalves, sua namorada até hoje. Modelo e surfista profissional, Claudinha é 2 anos mais velha que Mineiro e considerada a mulher mais bonitanas competições de surf. “Sempre dou entrevistas, mesmo que não chegue nas finais”, conta a beldade. Paulista criada na Praia do Francês [AL] e radicada em Florianópolis [SC], ela está entre as Top 8 do circuito brasileiro. Sua maior vitória aconteceu em 2006, num WQS 3* da Inglaterra c/ o sugestivo nome de Tampax Fresh Pro, categoria feminina do Rip Curl Board Masters. Mineirinho estava lá, garantindo a mulher e uns pontos.
Após 2 temporadas competindo como um Pro-Jr. no WCT, um garoto entre adultos, Adriano celebrou sua maioridade imprimindo um tour de force em 2008, obtendo bons resultados ao longo de todo o ano, evoluindo em esquerdas tubulares e pesadas, como Teahupoo [5º lugar], Cloudbreak [3º] e Pipeline [9º], terminando em 7º lugar, à frente de Jeremy Flores, Jordy Smith e Dane Reynolds – os adversários que interessavam, seus rivais na disputa dos títulos da próxima década.
Começou 2009 ficando em 2º lugar 1ª etapa na Austrália, e repetiu a campanha no Brasil. Perdeu essas finais p/ Joel Parkinson e Kelly Slater, respectivamente, mas na Espanha pegou um adversário mais fraco, Chris Davidson, e não deu mole pro azar: placar de 16,40 x 11,83. “Não achei as ondas na final, mas parabéns ao Adriano, é uma vitória merecida, de verdade”, disse Davo no pódio.
OUTUBRO ROSAAdriano de Souzaé jovem, talentoso, bem-sucedido e, aos 22 anos, temido e respeitado pelos adversários. “Aproveitando a deixa do mestreJosué de Castrono livro Geografia da Fome, metade do circuito não dorme porque tem fome de vitória e a outra metade não dorme porque tem medo dos que sentem fome”, escreveu Adler em seu blog.
Dez surfistas têm chances matemáticas de vencer o WCT 2009. “Após a vitória de Adriano no Billabong Pro Mundaka, a corrida ao título mundial se tornou uma bola de boliche rolando p/ as últimas duas etapas: o Rip Curl Pro Portugal e o Billabong Pipeline Masters”, analisa Renato Hickel, tour manager da ASP. A penúltima etapa está na água, a 2ª fase acontece enquanto escrevo estas linhas, Heitor AlveseBruno Santos já estão fora e ainda resta a bateria entre Mineiro eJihad Kohdr. “Em Supertubes, ele será tratado como local e poderá amassar o lip, mandar aéreos ou entubar”, diz Ian Cairns, um fã da pesada.
Mineirinho vai perder de primeira e dar adeus ao título este ano? Ou vai atropelar os “coolie kids” Mick e Parko e trazer o caneco pro Brasa? “O Mineirinho é aquela torcida que temos”, admite seu ex-shaper Ricardo Martins: “Se não for campeão, não será demérito nenhum. Acho legal essa transformação: o surfista que era admirador desse circo passer a ser o protagonista. Principalmente quando o atleta transpose isso de forma limpa, só deixando mensagem positiva.” A ASP deve estar orgulhosa.
E Claudinha, a namorada que ficou no Brasil: vai posar p/ a Playboy? Na última terça, 20/10, foi lançada a campanhaOutubro Rosa, de prevenção ao câncer de mama, e a loirinha paulista, em companhia de outras surfistas como a Top do WWT Jacqueline Silva, aparece seminua em fotos sensuais. A campanha está sendo promovida neste momento na Barra da Tijuca [RJ], onde acontece a última etapa do brasileiro feminino. A paraibana Diana Cristina, que não participou dos ensaios fotográficos, lidera o circuito c/ 2 vitórias.
Enquanto a lusitana roda, vocês ficam c/ as imagens da final na Espanha, uma galeria de fotos e a entrevista do nosso garoto prodígio ao site californianoFirst Stoke. Como falou o filósofo Henrique no blog Goiabada: “A necessidade faz o sapo pular. Pula, Mineiro!”
FS: Que tal a mudança p/ Orange County?
AM:A Califórnia é um grande lugar p/ viver. Estou morando em San Clemente e surfo Trestles todo dia.
FS: Qual a maior diferença entre viver em Orange County e no Brasil?
AM:Morar na Califórnia é um sonho p/ mim. Aqui eu só penso em surf, no Brasil há um monte de coisas acontecendo… A Califórnia tem boas ondas e bons surfistas. Eu sempre vejo alguns surfistas do WCt surfando, o que é demais! Me instiga a ser um surfista melhor.
FS: Que parte do estilo de vida de um surfista profissional os garotos não imaginam encontrar quando estão tentando chegar aonde você está hoje?
AM:Eu ainda me sinto como um deles. Eu tenho apenas 22 e sei do que você está falando. Eu penso sobre minha carreira, e sempre acreditei que um dia estaria nos Top 44. Eu treinei muito p/ estar aqui. É doideira, eu mal posso acreditar que hoje sou um Top e viajo pelo mundo c/ os melhores surfistas. Eu amo o que faço e esse estilo de vida é o melhor que existe.
FS: Qual a maior diferença entre os surfistas do Brasil e do resto do mundo?
AM:Nós crescemos surfando em fundos de areia e o resto do mundo tem ótimas ondas por perto. Tipo, o Aritz tem Mudaka, Mick tem Snapper, etc.
FS: Como você recebeu o apelido ‘Mineirinho’?
AM:Quando eu estava crescendo c/ meus amigos, eles me deram esse apelido porque eu era o menor do grupo. Mineirinho é tipo “little boy”.
FS: O que você terá que fazer p/ alcançar seu objetivo de vencer o título mundial da ASP?
AM:Não colocar tanta pressão em mim mesmo. Vamos ver o que acontece…
MINEIRINHO ou "EU NÃO TENHO CULPA DE COMER QUIETINHO..."
CAMPEÃO EM MUNDAKA WCT 2009
LÁ VEM O BRASIL DESCENDO A LADEIRA
CLÁUDIA GONÇALVES...
AS MELHORES CURVAS DO SURF MUNDIAL
Monday, October 19, 2009
A MATRIZ DA MATRIX
Acorde!Olhe o mundo à sua volta. O que você está vendo não é real, o que te disseram até hoje – seus pais, os livros, a Igreja, os jornais, a TV – é mentira. A realidade, da forma como a conhecemos, é um simulacro. Uma simulação.
Mas você pode mudar isso. Fazemos parte de um grupo empenhado em libertar a humanidade. Estávamos de olho em você. Queremos que se junte a nós. Mas eles também estão na sua cola, e quando vierem atrás de você, é melhor correr. Quer saber quem são “eles”? Quer saber quem somos “nós”?
WAKE UP NEOVocê conhece essa história, ahn?
The Matrixé um dos filmes mais conhecidos e influentes dos nossos tempos. Neo, o hacker interpretado por Keanu Reeves, é convidado a ingressar numa organização paramilitar que o resgata da realidade virtual em que sempre viveu. O ano é 2199, e o mundo é controlado por máquinas, que mantém os seres humanos em casulos que funcionam como fonte de energia.
Neo acreditava estar em 1999, ano de lançamento do filme dos irmãos Wachowski. Foi um período de produções loucas, cerebrais e questionadoras em Hollywood, fin de siècle total: Clube da Luta, de David Fincher, eQuero Ser John Malkovich, de Spike Jonze, eram viagens ao centro da mente. EMatrix, um mix de ação c/ ficção científica, religião & filosofia c/ diálogos espertos, efeitos especiais inovadores, tensão sexual e um mundo p/ salvar.“Você é meu Jesus Cristo, meu Salvador!”, diz um 'nóia' a Thomas Anderson, alter ego de Neo, ao comprar um programa pirateado.
A obra dosWachowskiestá repleta de citações, algumas implícitas – de Sócrates, Platão e Descartes a Júlio Verne, Isaac Asimov e Phillip K.Dick –, a maioria escrachada: Neo esconde muamba no livro Simulacros & Simulação, de Jean Baudrillard, segue o Coelho branco igual a Alice no País das Maravilhas, e é libertado do sono por Morpheus, líder do bando cujo codinome remete ao deus grego dos sonhos. A vidente é xará do Oráculo de Delphos, que namitologiapassava as mensagens dos deuses p/ os homens em linguagem cifrada. E Neo, cuja sonoridade é de ‘novo’ em inglês, ao mesmo tempo em que é um anagrama de ‘One’, é o Ungido, o Escolhido, o Eleito, aquele que irá libertar a humanidade, segundo as profecias.
SANTÍSSIMA TRINDADE“Matrix é um filme de luta que fala da dialética hegeliana, ao mesmo tempo que tem um homem que voa e pára balas de revolver.” Só nesta frase dos irmãos Andy & Larry, roteiristas e diretores da série, há referência a 2 filósofos alemães: Hegel e Nietzsche. E as citações bíblicas abundam: uma vez que Neo representa a volta de Jesus, Morpheus é o João Batista e a bela Trinity é a própria Trindade – através de seu amor o herói ressuscita. Que bonito.
“A ênfase nas escolhas dadas ao personagem de Keanu Reeves acentua o caráter ético da sua trajetória”, explica a crítica de cinema Isabela Boscov: “Quando Morpheus diz a Neo frases como ‘não pense que você é, saiba que você é’ e ‘cedo ou tarde, você vai perceber que há uma grande diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho’, elas traduzem sínteses do zen-budismo, no que diz respeito aos ensinamentos de autoconhecimento e iluminação.”
“Todas as idéias que um dia tivemos estão no filme”, disse Larry à época. Os irmãos Wachowski só esqueceram de citar, seja no filme, fosse em entrevistas, a verdadeira ‘trindade’ na qual Matrix se sustenta: um livro, um desenho animado e uma revista em quadrinhos.Neuromancer, romance cyberpunk de Willian Gibson, e o cartum japonêsGhost in the Shell já eram bastante conhecidos do público de ficção científica e sua influência é inegável, mas no caso de The Invisibles, gibi inglês do início dos anos ’90, as coincidências ultrapassam a tênue linha divisória entre inspiração e cópia.
DÉJÀ VUOs Invisíveis é a história de uma organização anarcopunk armada que tem como objetivo libertar o mundo do domínio de seres transdimensionais, os Arcontes, que influenciam o destino da humanidade através de agentes infiltrados em nossa realidade, aguardando apenas a hora certa p/ rasgar as paredes do real e dominar nosso universo. Essa ‘célula’ humana de resistência é composta por Ragged Robin, uma feiticeira ruiva sexy; Boy, ex-policial negra andrógina; Lord Fanny, xamã travesti carioca; e liderada por King Mob, um lutador careca de óculos escuros e trajes sadomasô, expert em ocultismo e controle da mente. Eles recrutam Dane McGowan, que precisa morrer p/ se tornar Jack Frost, entidade do folclore inglês que personifica o frio e o gelo do inverno.
Dane é um jovem hooligan de Liverpool, que aterroriza a escola c/ seus coquetéis Molotov e tem visões c/ John Lennon & Stu Sutcliff, o baterista que deixou os Beatles antes do 1º disco da banda [o cara mais azarado do rock]. Mas os Invisíveis vêem nesse delinquente menor de idade o novo Buda, e o resgatam da Casa Harmonia, instituto correcional que utiliza o método ‘experimental’ de extrair parte do cérebro dos detentos p/ torná-los seguros à sociedade. Em liberdade, Dane conhece o mendigo bruxo Tom O’Bedlam, que o leva ao topo do prédio mais alto, de onde pularão. “O velho Dane McGowan morreu naquela queda e você sabe disso”, diz Kin Mob na parte 3 de ‘Tão Fodido no Céu Quanto no Inferno’: “Pode sentar sobre o seu túmulo pelo resto da vida ou se juntar a nós e ser Jack Frost.”
O pulo do prédio, o ritual de iniciação, a simulação da verdade, as forças ocultas, a resistência belicosa, o treinamento do escolhido... As semelhanças c/ Matrix não param aí. Se no filme o Neo escolhe a pílula vermelha, em Os Invisíveis é o mofo azul que faz despertar. Os rebeldes e os agentes deslocam-se em diferentes dimensões, e na ‘hora do vamos ver’, o kung fu comanda. “É muito melhor!”, diz Andy W.: “Você retrata claramente a geografia e o balé da luta.”
Mitologia, filosofia, religião, metafísica, tecnologia, artes marciais, cultura pop, pessimismo quanto ao futuro, viagens no tempo e espaço – tudo isso já existia em The Invisibles, quadrinhos lançados em 1994 pelaVertigo, braço alternativo da editoraDC Comicsvoltado p/ o público adulto.
REI URBE
“The Invisibles é um thriller de espionagem místico de ficção científica”, define Grant Morrison. Se Morpheus é a cara do King Mob, Morrison éo própriolíder dos Invisíveis: "Ninguém acredita quando eu falo que as supostas coisas mais esquisitas da minha revista são de fato autobiográficas. E assim eu transformo as maiores viagens, resultado de químicas maravilhosas, em dinheiro p/ pagar as contas e a comida."
Natural da Escócia, contemporâneo de Alan Moore[Watchmen] e Neil Gaiman[Sandman], Grant, assim como Moore, é usuário de alteradores de consciência e começou por baixo, reformulando personagens de 2ª linha da DC – o cabeludo inglês recriou oMonstro do Pântano e o careca escocês ficou c/ o Homem-Animal. “Seus quadrinhos c/ temas como vegetarianismo, ecologia, drogas, psicodelia, abordados de maneira direta e utilizando de muita complexidade, foram os elementos que fizeram Morrison ser reconhecido”, diz o jornalista e fã Eduardo Féres.
Os irmãos Wachowski tiveram que escrever e dirigirLigadas Pelo Desejo, seu filme de estréia em 1996, p/ convencer o produtor Dino de Laurentis a pôr dinheiro no projeto deMatrix. Grant Morrison, por sua vez, passou toda a década de 80 aceitando encomendas p/ roteirizar sucessos mainstream da HQ como Batman e Patrulha do Destino, até conseguir autonomia p/ apostar suas fichas no projetoThe Invisibles.
A série, repleta de referências a paganismo asteca, sociedades templárias, libertinagem, maçonaria, Revolução Francesa, Teoria do Caos, LSD e Beatles, tornou-se o principal título da Vertigo nos anos 90, à frente dos hitsPreacher, de Garth Ennis, eHellblazer, clássico gibi fundador do selo. Lançada no Brasil pela editora Brainstore, não teve periodicidade definida nem boa distribuição por aqui, e acabou cancelada. Foi relançada ano passado pelaPixel, numa edição encadernada intitulada Revolução 1.
120 DIAS DE FODEU TUDO
“É provável que suas memórias desta história sejam melhores do que ela própria”, disse o autor no lançamento de The Invisibles nos EUA. Morrison é maluco: criou a coluna Invisible Ink, encartada no final de cada edição, que servia como canal de comunicação entre ele e o seu público – uma espécie de ‘protoblog’. Através dela, conclamou os leitores a se masturbarem em dias e horas determinados, p/ que visualizassem o "símbolo mágico dos Invisíveis".
Grant foi além das meras referências, transformando figuras históricas em personagens de quadrinhos: John Lennon tornou-se uma divindade depois de morto, e o Marquês de Sade é peça-chave na salvação da humanidade, ao ser cooptado p/ o grupo durante uma viagem interdimensional que envolve Lord Byron, Mary Shelley e a cabeça de João Batista. “Olhe para eles! Fui mandado à maldita bastilha por fazer em casa o que esses filhos da puta fazem em público”, diz o Marquês a King Mob em uma casa noturna sadomasoquista do séc.XX.
A saga durou 59 edições, de 1994 a 2000. A nova edição nacional d’Os Invisíveis conta c/ um prefácio escrito por Peter Milligan, que já escreveu histórias de Shade, Elektra eJudge Dredd: “[...]na dúvida entre comprar ou não este livro, eu te imploro. Em nome da arte, em nome do sexo, em nome da liberdade, compre. Ou roube. [...]O que quer que você faça, leia-o.” E o jornalista Delfin encerra o álbum no posfácio Barbelith, Lennon e a Revolução c/ uma dica que nos leva de volta à Matrix:
“Ao acompanhar as aventuras de Jack Frost, King Mob, Lord Fanny, Ragged Robin e Boy, tenha apenas três coisas em mente:
- o que você conhece é irreal;
- as barreiras não existem;
- o mundo está fadado a acabar.”
INVISÍVEL MUNDO NOVO
“O grande irmão te observa! Aprenda a ficar invisível.” As mesmas citações a1984, de George Orwell, e Brave New World, de Aldous Huxley, que se encontra em Matrix estão escritas c/ todas as letras n’Os Invisíveis, seja no quadro negro da sala onde a granada grafitada c/ um ‘sorria’ explodirá os agentes enviados pelos Arcontes, ou nas palavras deSadena boate SxMx: “Oh admirável mundo novo que abriga tais pessoas!”
“Fascinante é notar o quanto The Invisibles é semelhante à trilogia The Matrix”, escreveu Rodrigo Fernandes no site Universo HQ: “Das referências a uma realidade underground oculta sob o cotidiano comum às menções a forças transdimensionais (máquinas, no caso da obra dos filmes) que comandam o destino dos seres humanos. É de se pensar se os irmãos Wachowski, grandes fãs de HQs, não possuíam Os Invisíveis em suas coleções.”
“Tanto a separação dos 2 mundos – sensível e inteligível – quanto a idéia de simulacro/simulação aparecem de forma evidente e até literal no tal gibi”, analisa a blogueiraHellen Guareschi: “Morrison vai além, ao encaixar escritores, músicos e artistas em sua trama, seja pessoalmente ou incluindo personagens, letras de música ou referências diretas. A velha idéia de transformar marginalidade em heroísmo é genuinamente alçada à categoria de arte, em especial c/ a brincadeira do mendigo tutor aristotélico (quando Aristóteles foi ele próprio um preceptor) e a etapa divinatória do Pombo.”
Grant Morrison entrou na justiça c/ uma acusação de plágio contra os irmãos Wachowski quando o filme foi lançado, em ’99. Mas Os Invisíveis foram publicados pela Vertigo, propriedade da editora DC, que por sua vez pertence àWarner, produtora de Matrix, e o processo foi encerrado c/ um acordo entre as partes. Na ponta do lápis, Morrison acha que a similaridade entre as duas obras inviabiliza a adaptação de seus quadrinhos p/ o cinema: “É um bando de carecas em roupas de fetiche lutando kung fu. Já vimos isso, então não quero seguir o mesmo caminho.”
DESVIE DISSOO 1º Matrix custou $60 milhões de dólares, faturou $45.000.000,00 apenas no fim de semana de estréia, e levou 4 Oscar.Matrix Reloadedfoi orçado em $127 milhões e sua bilheteria mundial bateu em $740.000.000,00.Revolutions, o último da trilogia, custou $110 mi e arrecadou $425... O sucesso rendeu o mangáAnimatrix, o videogameEnter The Matrix, além de inúmeros produtos franqueados – de figurinhas autocolantes a parcerias c/ empresas de bebidas, carros e motos. Estima-se que a marca Matrix já tenha gerado lucros superiores a $2 bilhões de dólares.
Por outro lado, a influência do filme já pôde ser vista em 2 ataques terroristas isolados nas escolas dos EUA – em ambos os casos, garotos vestidos deNeoe armados até os dentes atiraram a esmo contra colegas adolescentes. E foi impossível não lembrar da cena do helicóptero no ataque das Torres Gêmeas no 11 de setembro, em 2001. O filósofo esloveno Slavoj Zizek explica que Matrix funciona como umTeste de Rorschach: “Cada um pode encontrar o seu ‘ismo’ preferido – existencialismo, marxismo, feminismo, budismo, niilismo, pós-modernismo”.
Andy & Larry W. criaram uma série influente, instigante e até perigosa, mas depois que se lê o gibi d’Os Invisíveis, lançado 5 anos antes, o aspecto revolucionário e inédito de sua obra fica apenas p/ os efeitos especiais e as cenas de ação que eles desenvolveram. O bullet-time permite tanto a visualização de elementos imperceptíveis, como o deslocamento no ar de balas voando, quanto a percepção tridimensional de um momento usando ângulos de câmera simultâneos, como nas coreografias do mestre Yuen Woo Ping, que trabalharia depois c/ Tarantino emKill Bill.
Mesmo estabelecendo novos padrões p/ o cinema, os irmãos Wachowski basearam-se em velhos filmes de Sergio Leone, Sam Peckimpah e Bruce Lee na criação das cenas de combates. E, ao se afastar das premissas criadas porGrant Morrisonp/ os quadrinhos, foram perdendo fôlego ao longo das sequências de Matrix. “O primeiro é sobre nascimento, o segundo sobre a vida, o terceiro sobre a morte”, diz Laurence Fishburne, ator que interpreta Morpheus, resvalando numa obviedade involuntária.
"Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade", disse Baudrillard à revista Época, em 2004: "Os diretores se basearam em meu livro Simulacros e Simulação, mas não o entenderam. Prefiro Truman ShoweMulholland Drive, nos dois filmes minhas idéias estão mais bem aplicadas. Os Wachowski me chamaram p/ prestar uma assessoria filosófica p/ Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas não aceitei o convite. Como poderia? Não tenho nada a ver c/ kung fu. Meu trabalho é discutir idéias em ambientes apropriados p/ essa atividade."
“Eles deveriam continuar a roubar minhas idéias, talvez assim teriam algo p/ se orgulhar de verdade”, ironiza o autor de The Invisibles: “Um filme que poderia mudar corações e mentes – e mundos.”
Tuesday, October 13, 2009
SARAVÁClostridium perfringens é o nome da bactéria causadora da gangrena gasosa, uma infecção que produz gás entre os tecidos do corpo. Geralmente ocorre em áreas traumatizadas e feridas cirúrgicas, evolui rápido e é caso grave. Se não for tratada a tempo, o enfermo entra em estado de hipotensão, insuficiência renal, choque, coma e, por fim, óbito.
Ronaldo de Souza Lima é o nome do ‘Chorão 3’, um dos vocalistas da Gangrena Gasosa, banda que comemora 20 anos c/ o 4º disco: SE DEUS É 10, SATANÁS É 666, prestes a ser lançado pela gravadora Freemind. O grupo surgiu nos anos ’90 em meio a uma onda do rock nacional em que novas bandas eram associadas a um determinado ritmo ou movimento: Chico Science liderava o manguebeat, os Raimundos vinham c/ o forró-core, e o Planet Hemp cantava a maconha. A Gangrena falava de macumba, e sua música foi batizada como 'SARAVÁ METAL'. Lançaram seu 1º disco em 1994,Welcome to Terreiro, ainda na época do vinil, pelo selo Rock It!, do ex-Legião Dado Villa-Lobos. Participaram de 2 coletâneas emblemáticas,No Major Babes, do jornalista Marcel Plasse, e Traidô!!- Tributo ao Ratos de Porão, produzido pelo Phú, da banda de HC de BrasíliaDFC[Distrito Federal Caos].
Em 2000 saiuSmells Like a Tenda Spirita, pelo selo Tamborete do amigo Leonardo Panço, e em 06 de junhode 2006 foi a vez doEP independente6/6/6. Nascida sob o signo de Satã [ou do Exú, como preferirem], a Gangrena Gasosa passou por várias fases e formações, c/ algumas baixas resultantes da energia pesada c/ que a banda trabalha – o vocalista Paulão, ex-Seletores de Freqüência e atualmente em carreirasolo, deixou o grupo depois de sofrer um atentado nas mãos de devotos fundamentalistas do Candomblé: “Isso é p/ aprender a não brincar c/ coisa séria”, teria dito um deles após aplicar-lhe algumas facadas [REZA A LENDA, pois Chorão não gosta de comentar o episódio].
“Metaleiro, gótico que anda de preto em cemitério, nego dá conselho: ‘Larga disso meu filho, fica direitinho’... Mas ninguém vê um adolescente entrar no mundo da macumba achando que isso é uma fase que vai passar quando crescer. Macumba é coisa mais séria, e ninguém gosta de mexer c/ essas coisas, não. Neguinho se borra mesmo”, diz Chorão. Conheci o ‘Omulú’ em ‘96, durante umHollywood Rockno Rio. O White Zombie tinha acabado de tocar e rolava a apresentação do Smashing Pumpkins, e Ronaldo bradava: “Porra, esse The Cure é chato pra caralho!” Haha!.. Chorão[o ‘3’ ele acrescentou depois, por haver outros 2 Chorões mais famosos que ele]é tosco, suburbano, sinistrão. Mas também é culto, inteligente, engraçado – e acima de tudo verborrágico.
Isso pode ser comprovado nas 2 entrevistas reproduzidas a seguir: a 1ª, postada pelo paulista Márcio SNO no portal Rock Press; a 2ª, conduzida por mim p/ o programa de TVPeriferia. As palavras saem como uma hemorragia. O negão abre o verbo sobre a trajetória da Gangrena, a fama de malditos, a responsa de ser pai e a paixão por Adelvan Kenobi. C/ vocês, as simpatias, mandingas & quizumbas de Chorão 3, puro suco da maldade. Chuta que é macumba!
Quem ouve o som deve achar que vocês se vestem de demônio, moram em cemitério e tomam água de vala. Quem são vocês afinal?
Eu não bebo água de vala, não, mas não sei se alguém da banda bebe. Veja um caso verídico que aconteceu c/ a gente. A Lana Romero, nossa manager, fez contato c/ a produção de um evento que rolou em Cabo Frio, chamadoRock Humanitário. Daí o cara que organiza falou assim pra ela: “Eles mexem c/ coisas muito sérias e não quero nada negativo no meu evento”. E adivinha quem toca... Quem? Quem? Quem? O KRISIUN!!! É mole? Tem troço mais DEATH que oKrisiun? É fácil não ter medo de Satã, Beelzebuth, Astarot, Demon, que são diabos gringos. Mas ninguém quer mexer com Exu, Tranca Rua, Pomba Gira e Zé Pilintra.
Os nossos santos de casa são mais poderosos que os importados?
Eles são mais nervosos, metem mais medo, eles estão aqui, né, meu? Nas esquinas e encruzilhadas da(s) (nossas) vida(s). Se quiser ver Belzebu e Lúcifer que estão láááááááááááá na Noruega, ou Voldermort (esse é doHarry Potter, nem meu filho tem medo mais...) você compra um CD, aluga um filme, entra na internet, você tem essa opção... Agora c/ a macumba, não, Tranca Rua e Exu Caveira, tá amarrado, né, mano?Você pode trombar c/ um despacho em qualquer esquina.Cara, tem gente que se muda de casa por causa de tambor de terreiro de macumba. Falam que é porque o som incomoda, mas acho que é medo mesmo. Eu tinha uma bobeira quando era pequeno, que sempre achava que meu pirú ia cair se eu pisasse em despacho de macumba, ou que a minha perna ia secar. Porra, quando aquele livro do Bispo Macedo[‘Guias, Caboclos e Orixás - Deuses ou Demônios’]foi parar lá em casa, eu parei até de comer doce de São Cosme e São Damião c/ medo, porque o livro falava que esses doces são oferecidos ao diabo antes de dar pras crianças. Isso é sério! A minha mãe compra doce pro meu filho em dia de Cosme e Damião, mas ela não deixa ele comer do saquinho de jeito nenhum. E eu respeito essa atitude dela, sei lá, né, meu, vai saber...
C/ essas mensagens que abordam em suas letras, como vocês lidam c/ os seus lados espirituais? Vocês também pedem licença quando cruzam por um despacho?
Eu tenho medo de praga de madrinha, de olho grande, de inveja, de mau olhado, de espírito obsessor, tenho medo de macumba, tenho medo de verO GritoeO Chamadosozinho, tenho medo de Poltergeistaté hoje (“foram eles, mamãe...”), tenho medo até do Gasparzinho querendo ser meu amigo... Tenho medo de tudo que eu não posso agredir e nem meter a porrada. Acho que cada um da banda tem sua maneira de se benzer dessas zicas que a Gangrena mexe. Mas não peço licença pra passar no despacho, não... Eu passo pelo outro lado da rua!
E esse ‘trabalho’ de lançar 3 discos de 6 em 6 anos? Foi um pacto mesmo ou ironia do destino?
Ahahahahahaha, todo mundo sempre pergunta se a gente tem pacto c/ o ‘capira’, mas isso não rola. Tem horas até que eu penso: “antes tivesse...”
Mas então esse lance de 6 em 6 anos foi estratégia p/ promover o EP 6|6|6?
Em relação ao nome do EP, c/ certeza. Mas a data foi um ‘dead end’, um prazo pra gente botar o disco na rua. Trabalhar sem prazo é uma merda... Tira a meta e fica muito largado, faz quando pode, quando dá... Quando você estabelece uma meta, você põe o trabalho à prova, se é viável ou não é. Também você avalia o grau de interesse (até o meu próprio) de quem tá junto no projeto. Vai chegando a hora de lançar e os assuntos cabeludos vão voltando junto: grana, show, grana, divulgação, grana, ensaio, grana etc. Mas também acontecem verdadeiras ‘declarações de amor’ pela banda. Eu e o Ângelo conversamos coisas e trocamos impressões que eram de chorar, literalmente. Acabei ouvindo também coisas do Vladimir e do Moreno que eu não esperava, que me surpreenderam muito, de saber o PESO que a banda tem na vida de cada um. Isso foi na época do EP, ainda não tinha o Renzo nem o Dread na banda. Quando vimos as músicas prontas, pensamos: “porra, se isso ficasse bem gravado ia dar um show do caralho...”
As letras demonstram bons conhecimentos de entidades de umbanda e candomblé. Foi feito algum tipo de pesquisa?
As letras são um crossover do dia-a-dia do brasileiro tosco com temática de macumba. Você não precisa estudar pra falar disso, basta viver no Rio de Janeiro e ter o dom de rir das desgraças. Hoje em dia, quem diria! Zé Pelintra é adesivo de carro!!! Tem o adesivo da frase clássica ‘amigo do Zé’ e aquele outro c/ ele encostado no poste, e isso vende na banca de jornal. Um adesivo de recorte eletrônico em 4 cores vende que nem água, por 2 cruzeiros o pequeno de uma cor só, e por 3,50 o grande colorido. A gente podia usar como merchandising da Gangrena na cara de pau! Até São Jorge é pop, tem uma porrada de gente c/ tatuagem de São Jorge matando o dragão, quem nunca viu isso? Tem adesivo pra carro também, que nem o Zé Pelintra. O nome do disco novo – Se Deus É 10, Satanás É 666 – vem de um adesivo dos crentes: “Deus é dez”. Vamos fazer vários adesivos desses pra vender como merchandising da banda, uma versão ‘defona’ dos adesivos crentes: “Tudo boto naquele que me fortalece”, “Foi Satanás que me deu”, “Dirigido por mim, guiado por Lúcifer”, “Deus é 10, Satanás é 666”, “Azazel Inside”, mas quero ver quem vai colar isso no carro.
Quando foi formado o Gangrena ninguém tocava nada e hoje a banda já conta com uma formação bacana (que tem até o Renzo do DFC), sem falar no monte de gente bacana que passou pela banda. Diante dessa referência, vocês poderiam imaginar que o som tosqueira da primeira demo iria ter esse formato de hoje?
Não, a gente não podia imaginar, mas a entrada do Vladimir na banda foi um divisor de águas pra essa mudança. Metaleiro do inferno, cabelão comprido e tudo... No primeiro ensaio foi logo tocando o riff de ‘Holly Wars’ doMegadeth, imagina! Meu cabeção pirou! Eu falei assim: “caralho, a palhetada desse cara é uma grosseria! Agora vai ser metal mêismo, mêu!”
Quando lançaram o disco Welcome to Terreiro, muita gente apostava que a Gangrena ia ‘acontecer’. No entanto, o que ocorreu foi o primeiro sumiço da banda. O que aconteceu por não ter rolado o sucesso em tempos de Mamonas Assassinas e Raimundos?
O que aconteceu é que a gente não era o Raimundos nem o Mamonas Assassinas. Neste último caso, graças a Deus, né, não? Aliás, graças a Deus nos dois casos, o Rodolfo virou crente... A Gangrena era underground mesmo. A gente mexe com macumba, a gente emporcalha de farofa todo lugar que a gente toca. Imagina se isso acontece no Gugu (eu ia adorar)! Velho, a gente é toscão à vera, não é firulinha, não. Não dá pra Gangrena tocar no Criança Esperança nunca, eu ia querer mandar o Didi calar a boca porque acho ele sem graça pra caralho. Como a Gangrena ia “acontecer” com uma letra tipo ‘Timbalada de Caveira’? Será que a gente ia ser chamado no programa da Hebe (gracinha) ou da Ana Maria Braga? Eu ia querer roubar o Louro José e dar pra minha mãe botar na estante da sala. Mas o beijinho da Hebe Camargo eu dispenso. Acho que ia me sentir como se estivesse beijando o Imotep da Múmia. Apesar de que essa mulher é coroa mas ela tem umas coxonas grossas, né, cara? Quem será o Escorpião Rei que sacode a Hebe Camargo?
Ah, bicho, se pegar as letras do Raimundos o que não falta é palavrão... Mas diante dessa declaração, então, não podemos esperar um lançamento de vocês nem num Pânico na TV?
Pode ser, no Pânico, pode ser, sim. Também tem o Hermes & Renato, os programas doGordo, doZé do Caixão... Tem espaço pra gente também. Já fomos no Gastão(Musikaos) e no Zeca Camargo quando era da TV Cultura. Mas o esquemão tipo Jô Soares de novo, Faustão, não sei, não... Isso sim tem mais espaço pro Raimundos (que eu gosto), pra Pitty (que eu gosto), pros Detonautas (que eu gosto), pro NX Zero (que eu odeio), essas paradas são rock também mas são menos nervosas. E têm um formato que dá pra rolar bem em playback se for preciso. Já fizemos playback no Caderno Teen da TVE e odiei isso, é muito fake, é muito escroto. Não nego que a TV é uma puta divulgação pra banda, em qualquer canal, fazendo qualquer programa, mas no nosso caso, acaba sendo um tiro no pé. Porque os fãs da banda não curtem playback, e quem não conhece não entende a proposta. Pra isso funcionar, tinha que rolar a gente tocando c/ a legenda das letras, que nem no clipe de ‘A SuperVia Deseja a Todos Uma Boa Viagem’, assim vale a pena até fazer playback mesmo. Assim eu iria amarradão, porque faria toda diferença entre ser ridículo e pagar um puta lelê, e ter a oportunidade de mais gente conhecer nosso trabalho.
Quais são as principais diferenças de ter uma banda na adolescência e depois dos 30 anos, com filho, família, essas coisas?
Você não ter mais disposição pra dar murro em ponta de faca... Não ficar mais aturando certas babaquices de gente que pensa que está te fazendo um favor não te cobrando venda de ingressos pra tocar... Não sei se é assim em São Paulo ou em outros estados porque estou muito por fora da cena, mas no Rio de Janeiro tá assim hoje... Mas acho que deve ser aqui mesmo, porque o que eu vi na produção doETHS[banda de new metal da França]feito pela Sob Controle, de São Paulo, fiquei impressionado c/ a puta estrutura que a banda teve no evento. Não só estrutura, mas acho que a palavra certa mesmo é suporte, logística, achei foda. O ETHS sobe no palco c/ um puta equipamento, roadie pra caralho, uma bateria zerada, o cara conta 1,2,3,4... BRAMMMMMMM!!! Tá ligado? Já manda um MI bordão na guitarra que parece um VRÚ (se existisse essa nota musical), som limpinho, tudo alto pra caralho... Me dá motivação de voltar c/ a banda e batalhar p/ alcançar esse nível de estrutura num evento. Os caras da Sob Controle são foda mesmo, não sei se estou fazendo propaganda gratuita, só respondi no contexto da pergunta, mas pra mim, o efeito foi que nem pegar um iPhone pela primeira vez na mão: me impressionou. Principalmente num meio em que todo mundo choooooooooooora pra caralho que tá ruim, tá ruim, tá ruim... Será que o público também não está cansado de sair de casa, pegar três ônibus pra ver 500 bandas sem previsão de horário pra começar o evento? Será que não estão de saco cheio de ver o nome de várias bandas no cartaz e ouvir o som igual ao do Atari Teenage Riotp/ todas as bandas saindo dos amps? Não sei, é uma pergunta...
Em Barra Mansa/RJ tem a bandaMiami Brothers, que bebe da água da Gangrena e faz um som que coloca Edir Macedo no alvo. O que vocês acham dessa disseminação? Há outras bandas que seguem o estilo de vocês?
Rapaz, eu acho que o Miami Brothers tem as letras mais toscas do mundo. A ‘Dança do Crucificado’ e a ‘Melô dos Três Pregos’ têm os refrões mais ‘defonildos’ que eu já vi. Aquele zine que o Xan faz,INFERNO PUB, é muito foda! E eles têm umas sacadas ótimas também: ‘Templo É Dinheiro’, ‘Umbanda Larga’ e ‘Paga que Eu Te Escuto’. Acho muito bom mesmo. As outras bandas, como disse na pergunta lá em cima, não têm como fazer um trabalho falando de macumba que não lembre a Gangrena. Tem tipo oOcultan, mas o som é muito diferente do nosso, e a temática parece mais séria. O importante é que o pau ronca! E isso é muito legal, tem uma música deles que eu ouvi, ‘Poderoso Exu Sete Crâ-ni-ôssssss’... Defão mesmo! Também vi no MySpace uma banda de death chamada Gangrena Febrosa que tem um logotipo parecido c/ o nosso, se não acredita, vai lá ver:www.myspace.com/gangrenafebrosa. Essa banda tem temática de splatter, doenças e desgraças afins. Fora isso, meu sonho é ver uma banda tocando uma cover da Gangrena. Acho que eu ia me sentir ‘a pica que matou Cazuza’ se uma banda tocasse uma cover da Gangrena! Coisa de artista, maior bronca de famoso, né, não? Eu teria coragem até de juntar dinheiro e bancar um tributo pra Gangrena Gasosa – tipo o Phú fez c/ a coletânea TRAIDÔ!!, no qual a Gangrena participou c/ a versão de ‘Beber até Morrer’ e ‘Vida Ruim’, transformado em ‘Benzer até Morrer/ Kurimba Ruim’ – , só pra ouvir esse CD e ficar me masturbando...
Chorão, em outras entrevistas você fala de possíveis relações mais profundas c/ rapazes do rock como Phú (DFC) e Adelvan (Programa de Rockde Aracaju), por exemplo. Como você explica a música ‘Emboiolada’?
Não, sai fora, brincar disso c/ o Phú é furada! O Phú come travesti mesmo! E isso sairia do campo da aventura p/ o campo do amor, e eu não quero casar c/ o Phú nunca... O único amigo que comeria por amor seria o Adelvan de Aracaju, faço qualquer coisa por aquele nariz! Largo até minha mulher pra casar c/ o Adelvan se ele me quiser.
Uma vez seu pai queimou uma pilha de cartas suas na ‘Fogueira Santa de Israel’ e colocou o seu nome na corrente de oração da Igreja Universal. Me fala, o que mudou na sua vida nesse período?
Fiquei careca, casei, engordei 20 quilos (minha mulher cozinha bem pra caralho) e estou mandando melhor no sexo apesar da minha pança extreme noise terror. E o meu pai saiu da Universale foi praQuadrangular. Mas tem o seguinte, agora que sou pai, percebo que os pais erram querendo o melhor pros seus filhos, e c/ o meu não foi diferente.
Então, talvez seja o caso de você dar o seu testemunho... Ou seu testemunho você não dá?
Tipo o que Rodolfo dos Raimundos fez? Não, isso, não... Não dou meu testemunho porque acho que ele não seria sincero... Acho que quando você descobre que as coisas não são só átomos (também não estou dizendo que são Jesus, nem Satã, nem Buda, nem Maomé, nem Alan Kardec, não é isso...) bate uma chapação, tipo um ‘PLÁ!!!’ na sua mente, e tem pessoas que querem falar isso no microfone pra todo mundo ouvir. Acho que é uma mudança de conceito muito grande e as pessoas querem, sei lá, compartilhar isso, penso que seja isso... Mas eu não tenho essa piração, pra isso eu tenho a Gangrena, que eu posso subir no palco, grito pra caralho, mas as pessoas que estão ouvindo vão lá QUERENDO ouvir isso. Acho um saco essas pregações que os crentes querem te empurrar goela abaixo porque estão arrependidos de cheirar, de fumar maconha, de fazer macumba pra separar marido, pra aleijar os outros, de dar o cu, de ser piranha, de roubar... Acho isso caído. E vêm c/ essa postura de que estão te fazendo um puta favor de mostrar o caminho do céu, e você que é um ingrato, não quer escutar o que eles têm a dizer... Já vi testemunhos sinceros, já aceitei orações sinceras também, porque acho que boas intenções não têm religião. Dos meus avós, dos meus pais, dos fãs e amigos da banda, aceito de coração quem quiser desejar boas coisas pra mim. Não sou ‘defão’ de mandar crente tomar no cu, essas paradas. Mas sei que tem muita picaretagem no meio também (minha vó falava que era “crente do cu quente”) e meto o pé quando vêm na minha direção pra entregar papelzinho e dizer que Jesus Cristo tem uma grande obra pra fazer na minha vida, mas falta eu comprar o material...
Já rolou algum processo por parte de espíritas, crentes ou mesmo pelo Lulu Santos?
Não, somos café pequeno pra eles, crentes e espíritas. E o Lulu Santos gosta da gente, eu também acho muita coisa do Lulu Santos bem legal.
O Lulu curte a Gangrena mesmo depois da ‘homenagem’ que fizeram pra ele no encarte do Smells Like a Tenda Spirita?
O Lulu Santos é ‘diabo de mídia’ e ele sabe disso. Como disse, eu tenho vários discos do Lulu Santos, pediria autógrafo se o conhecesse pessoalmente – e se os CDs fossem originais... Sem nóia!
Existe uma especulação de que o disco Roots, do Sepultura, foi inspirado em vocês. Definitivamente: isso é fato ou lenda?
Definitivamente oRootsé um crossover de Korn no som c/ Gangrena Gasosa no conceito. O clip de ‘Roots Bloody Roots’ é Gangrena até o caroço. Mas também, todo mundo que fala de macumba no Brasil vai remeter a alguma lembrança da gente, não tem jeito. Mas nós não somos donos de toda macumba do mundo e, além disso, o Roots é um disco foda (não, não é o melhor deles, prefiroChaos A.D.e oBeneath the Remains). Ninguém tem a patente das boas idéias, e em contrapartida, esse brá lá lá que rolou c/ o Sepultura nos ajudou na época, na tour da Alemanha a gente sempre era relacionado c/ o Sepulturae oRatos de Porão, era a melhor referência que eles tinham pra situar o nosso som. No problem! Sepultura é uma puta banda. Mas isso de fazer macumba não deu muito certo pra eles, porque a banda perdeu muito espaço depois disso e o Max virou mendigo... Meu Deus, que cabelo é aquele, né, velho? Tem uma foto dele na revista Rolling Stone que ele tá sem um dente... Cruz credo... Que onda errada... Ele acha que isso é bonito? Já pensou como ele vai falar pro Zyon escovar os dentes se ele não dá exemplo pro garoto?
E você, na Gangrena, depois que teve filho passou a rever algumas posturas suas para não dar esse anti-exemplo igual ao do Max?
Claro que sim, eu não fico dando mole, não, porque sei que sou referência e não vou colaborar ensinando mais merda do que as que ele já vai encontrar fora da escola e de casa. Eu não fico mostrando Playboy pra ele porque ele é homem, meu filho não tem nem 12 anos. A Playboy vai servir pra que? Pra ele sentir tesão? Ele não faz sexo c/ essa idade, pra que vou incentivar isso? Pra dizer pros amigos e vizinhos que ele não é viado? Acho isso babaquice... Você tira por uns pequenos lances que você observa (pra ser pai TEM QUE OBSERVAR SEMPRE), meu filho já veio me pedir cerveja em churrasco, tipo pra mostrar pros outros moleques que já era adulto que nem o pai. Não dei uma bifa nele mas dei um sabãozinho de leve no canto e ele bebeu foi Coca-Cola mesmo. Eu, hein, mano, não fode! Sinceramente, quando eu vejo essa molecada fumando maconha e bebendo até cair na sarjeta, sei lá... Me dá muito medo. Hoje em dia vejo filmes comoAlpha Dog, Kids, Requiem for a Dream,Trainspotting, e isso agora é filme de terror pra mim. Fico na merda vários dias dormindo mal, cheio de paranóias... É foda... Além disso, tem as outras coisas que meu filho vai ter contato dentro de casa mesmo, pela internet, não me iludo quanto a isso, ele sempre vai dar um jeito, como eu dei o meu jeito quando tinha a idade dele... Tem muita putaria e maluquices rolando na internet... Não dou lição de moral pra ninguém, porque sei que ninguém quer ouvir lição de moral do Chorão 3, que agora só porque é pai de família virou moralista. Mas, respondendo a sua pergunta, ser pai mudou isso na MINHA cabeça e esses são meus medos hoje em dia, quem não entende vá ser pai e veja qual é a bronca... Isso vai passar quando meu filho tiver 20 anos, mas quando ele tiver 30 vou ser avô, e aí vai começar tudo de novo...
Tem alguma música da Gangrena que você se recusa a cantar? Por quê?
Não, me recusar a tocar, não, todas são músicas da banda, mas tem umas que acho chatiiiiinhas pra cacete, tipo ‘Pomba Gyra’ e ‘Pegue o Santo or Die!’... Tem outras também, mas o fato é que curto as músicas mais porradas e c/ mais percussão.
Em 2001 vocês se aventuraram na Alemanha e Áustria fazendo alguns shows. Como foi essa experiência e como eles receberam a proposta da Gangrena? Ou não entenderam nada e tudo bem?
Eu gosto de contar uma passagem em particular que me deu muito orgulho dessa tour. Um dia fomos tocar num squat de três andares e lá em cima tinha um punk dormindo que acordou com o som e desceu pra ver a gente. Ele disse pro dono do bar o seguinte sobre nosso show: “Eles são tão agressivos quanto o Slayer, tão pesados quanto o Venom e tão loucos quanto o Prodigy”. Pra mim que sou a minha pessoa pessoalmente isso valeu qualquer custo que tive pra viajar naquela tour. Considerando que o cara não falava português e não entendia nada das nossas letras, tenho muito orgulho de ser da Gangrena Gasosa por isso. Se eu não fosse da Gangrena, seria fã pra caralho da banda.
Notei em diversos momentos nessa entrevista que você cita Deus. Quem é Deus para você?
Deus p/ mim, atualmente, é um crossover deStephen Hawking, doutor em Cosmologia, c/ todas as tradições místicas e ciências ainda não desenvolvidas e estudadas da face da Terra. Um conceito tipo o dofísicoAmit Goswami. Eu ainda estou sob efeito do filmeQuem Somos Nós?e essa pergunta é complexa demais, porque eu mesmo já me fiz essa pergunta e juro por Deus que não sei a resposta... Acho que Deus é um conceito muito pessoal, e eu ainda estou correndo atrás dessa compreensão. Saí do materialismo mental que venho pregando (vociferando) grosseiramente (sem conhecimento de causa, quero dizer) desde a minha adolescência, e estou deslumbrado demais c/ os novos conceitos c/ os quais tenho tido contato. O bom desse momento que estou vivendo é que (ainda) não fiquei chato o bastante p/ ficar pregando meu ponto de vista pra ninguém. E espero permanecer assim por muito tempo, acreditando em Deus, mesmo que eu não saiba explicar quem ou o quê Ele é.
O que podemos esperar da Gangrena nessa nova fase?
Sinceramente, eu também gostaria de saber. Eu me faço essa mesma pergunta todo santo dia...
Saturday, October 10, 2009
SE DEUS É 10, A SUPERVIA É 666 Senhores passageiros c/ destino a Deodoro, Bangu, Campo Grande, Santa Cruz, Nova Iguaçu, Queimados, Japeri, Paracambi, Belford Roxo, Gramacho, Saracuruna e Vila Inhomirim: vocês estão fodidos!
Durante 2 dias desta semana, uma pequena guerra civil foi travada nos trilhos que partem da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Começou na manhã do dia 07/10, c/ um trem enquiçado nas imediações da estação de Nilópolis. O maquinista abandonou a composição e deixou os usuários presos nos vagões lotados – a maioria ali a caminho do trabalho. Após 20 minutos sem notícias, geral começou a forçar as portas e saltar pelas janelas. Alguns pés quebrados e tornozelos torcidos. Muita revolta.
A população voltou aos guichês da estação p/ exigir seu din-din de volta. A empresa responsável recusou-se a devolver o real, e umprotestoinstantâneo irrompeu: o povo indignado destruiu a bilheteria, arrancou uma das catracas, invadiu a linha férrea e ateou fogo num trem.
Na tarde de quinta, 08/10, um novo protesto causado por atraso nos embarques fechou a Central por mais de 1 hora. O Batalhão de Choque da PM foi chamado e conteve o tumulto c/ bombasde gás e tiros de escopeta. Mais de 20 feridos contabilizados nesses 2 dias. Na manhã de ontem, os trens no ramal de Deodoro a Santa Cruz circularam c/ atraso novamente. Desta vez não houve revolta popular. Aparentemente, as pessoas cansaram de apanhar.
PAGUE P/ ENTRAR, REZE P/ SAIR “Trens não se compram como sapatos ou bolsas nas lojas, é preciso encomendar e esperar”, diz o Secretário de Transportes do Rio, Júlio Lopes.
A SuperVia Concessionária de Transporte Ferroviário S/A, administradora da malha [sub]urbana carioca, alega que a pane da manhã de quarta e os atrasos dos últimos dias ocorreram “devido a problemas em uma subestação de energia”. Em entrevista concedida ontem ao programa RJTV, da Globo, o secretário Lopes ‘garantiu’ que vaicobrarda empresa um plano de emergência. Ele admitiu a precariedade do sistema de transportes da capital fluminense, mas condenou as manifestações: “Pessoas mal intencionadas se incluem no meio dos usuários e praticam vandalismo, o que aumenta ainda mais o sofrimento dos passageiros que precisam utilizar os trens p/ trabalhar”.
O Estado é ausente, a polícia é repressora, a iniciativa privada é mal intencionada e o povo é quem paga o pato. “Em 2007 um acidente provocado pela empresa, o pior em 10 anos, deixou 8 mortos e 111 feridos, o que também gerou a revolta da população”, informa ositedo Partido da Causa Operária. Além de incompetente, a SuperVia é reincidente em maltratar seus clientes.
Quem não lembra das cenasgravadasem abril de funcionários da concessionária chicoteando os passageiros pendurados em portas e janelas, p/ que entrassem nos vagões? "Em relação às imagens na estação de Madureira, aSuperViainforma que os agentes de controle são orientados a coibir tentativas de depredação ao patrimônio público, atos de vandalismo e condutas que coloquem em risco os demais passageiros e a operação regular dos trens", informou em nota.
RAP DO TREM “Pegar o trem é arriscado/ trabalhador não tem escolha/ então enfrenta aquele trem lotado”, járimavao rapperSandrão há 10 anos. Ele e todos os integrantes do grupoRZOsão de Heliópolis, periferia de São Paulo. No Rio, outra banda de suburbanos também fez música p/ o sistema ferroviário de sua cidade: “A SuperVia Deseja a Todos Uma Boa Viagem” é uma homenagem de Ronaldo ‘Chorão’ aos serviços prestados pela famigerada companhia.
Morador de Campo Grande e trabalhando das 8:00 às 18:00 de segunda à sexta, o vocalista daGangrena Gasosasente na pele as agruras de 2 viagens diárias em trens sob condições subumanas: "Senhores passageiros a SuperVia informa/ Hoje todos os ramais operam com atraso/ Senhores passageiros a supervia informa/ A composição vazia só vai fazer manobra", canta o refrão.
Mais conhecidos pelo satanismo afrodescendente, Chorão e a Gangrena provam que basta morar longe da zona sul carioca p/ se sentir um frango de despacho numa encruzilhada: “As letras são um crossover do dia-a-dia do brasileiro tosco c/ temática de macumba. Você não precisa estudar p/ falar disso, basta viver no Rio de Janeiro e ter o dom de rir das desgraças."