CHEIRO DA TERRA
A polícia existe p/ servir e
proteger. Servir a quem? Proteger de quê?
“A polícia representa o aparelho
repressivo do Estado que tem sua atuação pautada no uso da violência legítima”,
define Celma Tavares, jornalista mestre em Ciências Políticas pela UFPE. “Mas
essa violência legítima está ancorada no modelo ‘ordem sob a lei’, ou seja, a
polícia tem a função de manter a ordem, prevenindo e reprimindo crimes, mas tem
que atuar sob a lei, dentro dos padrões de respeito aos direitos fundamentais
do cidadão – como direito à vida e à integridade física.”
Durante anos, acreditou-se que a
truculência e corrupção da Polícia Militar originava-se da falta de preparo e
na baixa remuneração do seu quadro. Hoje, um policial militar em Sergipe ganha
no mínimo R$ 2.576 por mês, chegando a mais de $13 mil nas altas patentes – acima
da média nacional, superando os salários do Exército. “As carreiras mais bem
aquinhoadas com aumentos de salários nos últimos anos são representadas por
fortes sindicatos ou associações de classe, que lutam por seus interesses”,
divulgou em nota o Clube dos Militares.
O que justifica então os
episódios protagonizados pela PM em Aracaju?
Cláudio Miguel é vocalista do grupo Cataluzes, autor de um clássico do cancioneiro sergipano, ‘Cheiro
da Terra’, faixa 3 do álbum de estréia da banda em 1983, VIAGEM CIGANA, gravado
no Rio de Janeiro. “Um disco histórico”, atesta Rian Santos do Jornal do Dia. “Com
apenas 16 canais, o Cataluzes conseguiu mais do que muito músico entupido de
recursos, com a participação do saudoso Paulo Moura, que assina os arranjos e a
direção artística. O grupo foi o primeiro vencedor do Festival de Música
Popular Sergipana, no início dos anos 80, abrindo a porteira para a caralhada
de bons músicos e compositores que desembocaria na diversidade criativa de nossos
dias.”
Na quarta-feira 16/05, Cláudio Miguel tocava uma composição nova que entrará no próximo disco, reunido c/
amigos em frente a uma loja de conveniência, quando um Beetle desgovernado
invadiu o posto e bateu numa bomba de combustível. “Ouvi o estrondo, de repente
apareceu um garoto nervoso chorando e eu o levei pra dentro da loja”, relata o
músico. Em seguida, retirou seu próprio carro do local – temendo uma explosão –
e voltou p/ pegar o violão. A polícia o esperava. “Eles disseram pra mim que ‘quem
protege bandido é bandido também’ e aí eu disse que aquela atitude era uma
molecagem porque todos me conhecem e eu não sou bandido.”
Preso por desacato,
foi conduzido algemado dentro de um camburão até a delegacia, onde permaneceu por duas horas e assinou um
termo circunstanciado. O que ‘us hômi’ não sabiam é que estavam levando o
presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SE. Cláudio, advogado, abriu processo contra seus algozes. “Fui violentado enquanto
cidadão. Eu é que fui desacatado e não ficarei submisso a pessoas despreparadas
para exercer a função de policial.”
É até bom que isso tenha
acontecido c/ alguém de tal porte, c/ voz ativa e capaz de se defender. Imaginem
o que pega na periferia, pelas quebradas, na calada da noite – sem ninguém saber.
“Assusta, assalta os delinqüentes dos vis albergues naturais”, já dizia a letra
de ‘Vida Cigana’. A OAB divulgou nota de repúdio em que “reafirma a necessidade
de melhores mecanismos para avaliação do preparo técnico e psicológico dos
agentes policiais do estado de Sergipe, sobretudo diante dos últimos
acontecimentos.” Referência ao massacre no Hospital de Urgência.
Na noite da sexta-feira 27/04, uma
tentativa de assalto descambou p/ uma troca de tiros. O irmão de um tenente da
PM foi atingido nas costas e não resistiu. Os 3 ladrões foram baleados, mas
conseguiram fugir de moto. O sobrinho do tira, que acompanhava o pai, também sobreviveu
e foi p/ o hospital c/ uma bala na perna. De lá, ligou p/ a família avisando
que os bandidos estavam sendo atendidos no mesmo setor que ele. Em poucos
minutos, o tenente e seus 2 outros irmãos – um deles soldado da PM – invadem o
hospital e matam 3 pessoas à queima-roupa.
Segundo testemunhas, o tenente
arrancou Márcio Alberto Silva Santos da maca e atirou no peito da vítima. O irmão
soldado teria disparado contra a cabeça de Adalberto Santos e assassinado
Cledson dos Santos c/ 7 tiros: um na orelha, um no pescoço, um na barriga, 2
nas costas e 2 na nuca. “Após o massacre, os PMs e o outro irmão saíram
tranquilamente do hospital, mesmo com a presença de policiais militares, civis
e seguranças de uma empresa particular”, informa o site Alerta Notícias.
O governador destacou o coronel
Maurício Iunes p/ o comando da Polícia Militar de Sergipe. “Tudo vai ser
apurado”, diz o novo comandante. Iunes é conhecido por ser linha-dura, já
enfrentou até rebelião de presídio, mas há 2 anos teve que entregar seu cargo de
comando no policiamento militar da capital após acusação de espancar e manter
sob cárcere privado um universitário de 20 anos que estava saindo c/ sua filha
de 14.
“Nós nos encontramos pela 1ª vez aquele
dia, na porta do condomínio Mar Azul”, depôs Paulo Ítalo. “Na hora o coronel
chegou, me algemou e me levou pra casa dele, onde ele e o filho me espancaram
por 30 minutos.” Iunes dá sua versão: “Eu o acusei de aliciamento de menores,
trouxe pra casa e o detive porque ele ficou agressivo e quebrou o braço do meu
filho Tiago. Se eu tivesse batido durante meia hora, garanto que ele não
poderia nem falar.”
Candelária, Carandiru, Carajás, Pinheirinho. Exemplos não faltam de uso arbitrário da força e abuso de autoridade da PM. Eu não vi, não ouvi e não falei. Só
sei que a polícia nunca está por perto quando a gente precisa. Servir a quem?
Proteger de quê?
“Eu quero o cheiro das manhãs da minha terra, ver o sol descer
na serra e o vento norte soprar/ Eu quero mesmo é ficar bem juntinho dela, na
praia de Atalaia, mirando as ondas do mar”...
















































